É incrível a capacidade de autopromoção do mercado e o reflexo deste processo na vida das pessoas. Hoje, um produto, incluo também seres humanos que cumprem esta função, é vendido diversas vezes, de diversas maneiras, até um ponto onde nada mais é vendido, mas sim, apenas comprado. Como assim?
Vamos começar pelo o que está na cara: A Globo descobre um ator, ele trabalha e rende nas cenas de novelas, como função primária. Na função secundária, ele inicia um roteiro comercial pelos programas da casa: Vídeo Show, Faustão, Mais Você, etc. Na função terciária, ele ocupa as páginas do G1 com seus relacionamentos, selfies, flagras e escândalos. Na função quartenária, ele se torna a cara de alguma campanha publicitária, geralmente operadora de celular, cosméticos, ou qualquer coisa de uso pessoal, que todo mundo tem, e que nos cause a sensação de próximos do cotidiano de um famoso. E por aí vai... vira fofoca nos outros canais e revistas parasitas, resolve entrar para a carreira musical ou realizar o casamento do ano. Neste ponto, já não lembramos mais que o sujeito era um ator, e o porque admirávamos seus real trabalho - talvez nem ele saiba mais - tendo o mesmo se tornado apenas uma imagem criada para fazer dinheiro.
O mesmo acontece com vários objetos que compramos, muitas vezes inúteis, mas que cumprem um papel de inserção social para nós (Se todo mundo tem, eu também devo ter...). Bem na linha do que um velhinho barbudo dizia lá atrás, basicamente afirmando que, iríamos chegar em um ponto, onde tudo perderia o seu real valor, a sua real função e essência - inclusive as pessoas. E aí entra o reflexo deste processo em nossas vidas, ao qual, em escalas diferentes, estamos todos submetidos, porém é possível destacar pessoas altamente problemáticas e controversas. Nascem os "solitários da multidão" que necessitam mostrar para o mundo que são muito felizes, iguais ao que padrão do momento pede, e que a vida não tem dor, derrota ou solidão, isto tudo através de seus posts, fotos e opiniões de senso comum.
Se transformam em "posers", não possuem autenticidade, são tomados pelo complexo de adequação social e extremamente preocupados com a imagem que querem construir. A partir daí já estão cheios de causas pela causa própria, escolhem superficialmente alguma ideologia, religião ou estilo de vida, pois precisam se encaixar, e ao se encaixar, se proclamam os donos da verdade - odiando qualquer um que pense ou seja diferente.
Filhos de uma busca insaciável, falsa, que tenta acompanhar a dinâmica do tal mercado que vive para si próprio, sempre na autopromoção vazia, sempre vendendo nada a preço de tudo. Vício que só conseguiremos romper com muita reflexão, aceitação e desconstrução de nossas frustrações, desligando o modo automático de nossas vidas que segue qualquer coisa que nos é apresentada.
A busca pelo sentido da vida é inerente a todo ser humano. Todos nós erramos e nos perdemos, todos nós podemos ser influenciados ou padronizados. Mas também todos nós temos a capacidade de reflexão, mesmo que por minutos em um dia corrido, para nos encontrarmos com nós mesmos. Enfim, espero que a gente seja menos mercado e mais a gente mesmo.